Aquela dor o incomodava de tal forma que não conseguia ficar parado no lugar, andava de um lado para o outro, dentro daquele apartamento. Mas aquele lugar lhe fazia mal, Aquela dor desordenava seus pensamentos e não era aquilo que ele precisava, desceu as escadas se apoiando com a mão no ventre, o porteiro abriu o portão ele saiu sem destino, o porteiro lhe chamou para lhe dar alguma informação, mas não deu ouvidos, não tinha consciência nem discernimento para falar com ninguém. E andou, andou até suas canelas latejarem, mas não ligava, andava até o suor se sobrepor à camisa e andou, andou por lugares que nunca passou, estava perdido, mas isso não era importante, até que a exaustão lhe venceu, sem fôlego parou, tossindo sem ar nos pulmões e seu estômago á doer.Quando um homem fedendo cachaça, trombou e caiu junto a Menosqueu, Menosqueu sem saber o que acontecia saiu de baixo do mendigo e ajudou ele a se levantar. Nesse processo, ele olhou dentro do capuz, daquela grossa capa e espantou-se:- Collegazo?- É o Menosqueu? Aquele vagabundo? – perguntou aquela voz enrolada e fedorenta.Eram inconfundíveis aqueles olhos. Menosqueu e Collegazo eram amigos no tempo de faculdade, Collegazo era um homem inteligentíssimo, mas a faculdade não era o lugar dele, o mundo era seu quintal. Ele não chegou a terminar o segundo ano com Menosqueu e Menosqueu se lamentava por isso, a Publicidade perdeu uma grande cabeça. Menosqueu estava feliz e triste ao mesmo tempo, feliz por ver seu amigo, e triste por vê-lo daquele jeito.E sentaram-se no meio fio, Menosqueu ainda buscando fôlego, e Collegazo bebericando uma garrafa quase vazia de vodka:- Eis, ao meu lado o grande Menosqueu, o publicitário! – disse Collegazo.- Nem tão grande, amigo! – retrucou Menosqueu.- O que me falas da vida Menosqueu ? pergunta o Mendigo.- Ah, velho amigo a vida esta caminhado, me encontrei a pouco tempo e o pior, encontrei muita bagunça. E estou arrumando, mas me falta uma vassoura! Entende- Como entendo, na minha vida eu deixei a bagunça se instalar. – Disse Collegazo antes de uma golada na garrafa e matá-la inteiramente. - Como deixou isso acontecer, Collegazo? – Estupefato perguntou Menosqueu. - Ah, my friend (falava muito bem o inglês, e deixa escapar algumas expressões de vez em quando) quando nascemos, Deus nos da um violão para tocarmos nossas vidas e somos obrigados a compor uma música, e escolhemos, ou o Mi, ou o Fá, Si , o Dó enfim, todas as notas, ao escolhermos uma nota para tocá-la, mas veja bem, você não sabe se é a certa, apenas escolhe e dedilha essa escolha, isso vibrará a corda do violão e essa corda não parará de vibrar enquanto a força dela não acabar, e isso vai moldando a música, a sua música, e quem a faz é você. Eu tive que escolher, ou tocava a música certa, ou tocava a minha música, a que eu inventasse, e escolhi a minha, toquei pelo o mundo a fora, errei alguns acordes e esperei eles pararem de tocar, e toquei de novo. E não me arrependo de tocar a minha música! – disse isso levantando-se e ensaiando alguns passos de dança, impotente de tal façanha, deitou-se e dormiu com um sorriso de criança no rosto.Menosqueu achou melhor não acordá-lo, escreveu num bilhete seu endereço assinando: Menosqueu, o vagabundo. E se foi pensando nas palavras daquele filosofo cuja sua faculdade era o mundo, seu professor era a vida, e o giz e a lousa era a garrafa de vodka.